Avaliar nas redes sociais?

PLEs, VLEs e pessoas

Escreveu o meu colega Pedro, a propósito da aprendizagem informal de cada um em redes sociais / pessoais:

“fora do VLE, podemos considerá-los [aos grupos em redes sociais extra-instituição e aprendizagem formal] como parte dos PLE’s de cada um dos colegas da licenciatura, onde a colaboração é essencial até como forma de motivação para colegas que se sentem frustrados e desmotivados com o desenrolar das atividades académicas ao longo dos semestres, acontece muito. Para mim foi das experiências mais ricas que tive.”

Primeira ideia que me ocorreu de imediato e que não carece de fundamentação teórica: as pessoas contam. Fazem (toda) a diferença. A escolha dos seus interlocutores não é casual e é importante. E a qualidade das suas interações ainda mais.

Os pressupostos teóricos, a fundamentação científica e o quadro epistemológico podem ser irrepreensíveis ou estar bem definidos e alicerçados. Sem as pessoas certas ou sem pessoas que “se acertem” e saibam “encontrar-se”, desafiar-se mas complementar-se, tudo será menos conseguido, menos motivante, menos sustentado, no sentido interacionista ou piagetiano do termo, e menos sustentável, na aceção que Boud começa por referir em Sustainable assessment (2000). É certo que este autor associa o conceito de avaliação sustentável, que acabámos de desenhar (ou pelo menos assim o espero….), à definição inicialmente dada por Brundtland.

Mas neste post o que vou fazer é aproveitar-me dos dois autores para chegar a uma paráfrase sobre a construção do meu (do nosso?) conhecimento: Conhecimento sustentável pode ser definido como conhecimento à altura das necessidades presentes, mas que irá preparar-nos para o que vamos precisar saber a seguir ou no futuro. (Boud, 2000)

Conhecimento sustentável

Eis um dos motivos (sem desprimor para os restantes colegas) pelos quais tenho adorado trabalhar com a Ana Loureiro e a Célia Ribeiras. A experiência tem sido muito rica pelo questionamento constante do que se analisa e debate. Não vos falo de calmarias e cenas bucólicas de verão onde tudo paira e nada bule, porque rendemos o corpo e a mente ao calor e à brisa mansa. Nada disso.

Este nicho do meu PLE (Lou e C) é dinâmico e, por vezes, revolto ou interrompido por esse pequeno detalhe que se chama “vida”.  Isso… filhos e aulas e escola e colegas de escola e família que têm o terrível hábito de se meterem nos nossos estudos… Este nicho do meu PLE é imperfeito. E não são todos? Mas tem sido estruturante. Um diálogo que ajuda a pensar. Tal com várias outras interações proporcionadas pelo MPeL.

Avaliar nas redes sociais?

David Boud (2000) poderia dizer que essa avaliação já se faz e pode ser feita por cada um de nós informalmente. Se, acrescento eu, formos atentos, desprovidos de escudo anticrítica construtiva e tivermos um bom detetor de manobras de diversão. Ah, sim: e um míssil infalível para agentes potencialmente tóxicos. Também os há, nos amigos do Facebook e não só.

Para percebermos se estamos ou não a aprender o que é suposto, para avaliar isso, não é preciso “dever” só é preciso “saber escutar” e interpretar:

They [nós, os estudantes, as pessoas] should be able to do this in ways which identify whether they have met whatever standards are appropriate for the task in hand and seek forms of feedback from their environment (from peers, other practitioners, from written and other sources) to enable them to undertake subsequent learning more effectively. They should be equipped to do this in a wide range of settings and in a variety of circumstances. (Boud, 2000)

Consequência maravilhosa disto:

they will not be dependent on teachers or other formal sources of advice, but they will be able to work with others and deploy available expertise in a reciprocal fashion. (Boud, 2000)

E ao ler esta conclusão lembro-me de Adell (2012) a falar do seu PLE e ouço-o a dizer que devemos ser generosos, porque a rede também o é e reconhece essa generosidade. De facto, como já disse a Célia a propósito da nossa última colaboração em Avaliação em Elearning: “os conhecimentos que adquirimos nas outras UCs também são visíveis, afinal estamos num processo!”

Como avaliar nas redes sociais sem perder a informalidade que alimenta a colaboração todos os dias?

Não creio que seja possível… tudo o que seja avaliação para certificação, como é o nosso caso aqui (MPeL), precisa de formalidade para que não se confundam as linhas que separam os estudantes dos seus professores, por um lado. E também porque tudo o que seja avaliação por pares, ainda que cordial e/ou com relativa informalidade, é visto com desconfiança. Está estudado também. E é algo que exige grande ética e seriedade por parte dos estudantes. E treino.

A informalidade é ótima… nos lugares certos nos contextos adequados. Demasiada informalidade pode ser tomada por falta de noção desses mesmos contextos. Tal como excesso de formalidade pode ser tomado por frieza ou arrogância. Tanto mais que, se tivermos em conta ambientes virtuais apoiados sobretudo na leitura e na escrita, como os fóruns ou mesmo o Facebook, muitos elementos ficam de fora da comunicação: entoação, modulação, olhar, expressão, linguagem corporal. E sublinho que me reporto sobretudo ao formato escrito das mensagens, não a mensagens instantâneas ou por voz, nem a filmagens.

Referências

Adell, J. (2012). PLE. In YouTube. https://www.youtube.com/watch?time_continue=16&v=blzYQlj63Cc

Boud, D. (2000). Sustainable assessment: Rethinking assessment for the learning society. Studies in Continuing Education22(2), 151–167. https://doi.org/10.1080/713695728

1 comentário(s) sobre o “Avaliar nas redes sociais?

  1. Pedro Ribeiro

    Cara colega Ana

    Mais uma vez fico muito agradado com esta reflexão e ajuda-me a esclarecer algumas das dúvidas que tenho em relação a este assunto. Tem um efeito terrivel mas ao mesmo tempo muito bom, se pensarmos em termos epistemológicos, leva-me para outras questões. Mas a vida não é isso mesmo? Um continuo ponto de interrogação.

    Responder

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